terça-feira, 9 de outubro de 2018

O jovem, a sombra e o banquinho




Ele sempre era o primeiro a chegar e o último a sair. Todos os dias, com raríssimas exceções, por volta das 14 horas e brincando com todos que deparava pelo caminho o jovem se aproximava do seu destino, que nada mais era do que uma pequena sombra que escondia um banco de madeira em formato de L.

Por ali ele ficava até que aos poucos, sem muita demora, estava rodeado de tantos outros jovens ou não que se apertavam debaixo da pequena copa da árvore, fugindo dos raios do sol. Situação que perdurava até a chegada da noite.

O motivo do rotineiro encontro, além da algazarra juvenil provocada pelo papo sem fim, eram infinitas partidas de carteado, que se revezavam entre o truco e o buraco.

Entre uma partida e outra o que não faltava era conversa fiada, contos que se repetiam com certa frequência e muitos planos para o futuro. Principalmente os mais jovens desabafavam seus projetos de vida, seus sonhos, seus desejos de conquistas.

Todos e às vezes muitos de uma só vez, balbuciavam seus delírios e criavam cenários futuristas. Claro que no final de cada prosa todos se davam bem, como num conto de fadas que sempre tem o final feliz.

Mas com o passar do tempo, e por motivos variados, ora um ora outro, fazia com que a turma de amigos do carteado fosse diminuindo. Até que praticamente não era possível mais continuar a jogatina, pois passou a faltar parceiros. Cada um dos que não apareciam mais deu a entender que atinou em seguir o seu destino, os rumos da vida e buscar a concretização dos seus sonhos.

Mas ele continuava o mesmo, chegando por volta das 14 horas, sentando no banquinho, que agora já não era tão disputado, sendo o último a ir embora para o seu lar. Frequentemente quando alguém passava pela rua, perto de onde estava sentado, introduzia um papo que parecia ser interminável. Falavam de tudo, de coisas corriqueiras ao embate de ideias políticas, e ao fim o transeunte continuava o seu destino.

Mas algo diferente parecia estar acontecendo com aquele garoto, que depois de alguns anos fazendo sempre a mesma coisa, já não era mais o mesmo, pois os sinais da idade começam a despertar.

O papo amigável, descontraído e repleto de sonhos, transformou-se em queixas, desilusões e cheio de amarguras. Até que ele se viu praticamente só, sentado no banquinho debaixo da imensa sombra proveniente da copa da árvore. Não era preciso mais empurrões pois o espaço se tornou todo dele. E cultivando a solidão começou a pensar na vida de cada um dos companheiros que por várias tardes ali estiveram.

Foi justamente naquele dia, num momento de solidão, que ele aprendeu que sombra e água fresca pode nos fazer sonhar, gastar o tempo da vida, mas jamais conquistar os sonhos que queremos. O que importa não é o que queremos, mas sim, o que fazemos para conquistar o que queremos.


Walber Gonçalves de Souza é professor e membro das Academias de Letras de Caratinga (ACL), Teófilo Otoni (ALTO) e Maçônica do Leste de Minas (AMLM).

Resultado do 1º Concurso Literário da A.M.L.M. - Prêmio Prof. Antônio Fonseca da Silva



De acordo com o Edital Nº 01/2018 - I CONCURSO LITERÁRIO DA ACADEMIA MAÇÔNICA DE LETRAS DO LESTE DE MINAS - PRÊMIO LITERÁRIO PROF. ANTÔNIO FONSECA DA SILVA – CRÔNICAS, a Academia divulga o resultado parcial dos classificados, aguardando eventuais recebimentos de recursos, conforme previsto no edital, para a divulgação definitiva do resultado.
Concorreram 32 trabalhos e foram selecionados 12, sendo que os três primeiros receberão a Medalha Prof. Antônio Fonseca da Silva de Literatura e, os classificados do 4º ao 12º lugar receberão o Diploma de “Menção Honrosa” pela classificação.
RELAÇÃO EM ORDEM DE CLASSIFICAÇÃO: 
1º lugar – A Boneca de Pano, de autoria de Phâmella Paula da Silva 
2º lugar – Caminhando a Sessenta, de autoria de Evandro Valentim de Mello 
3º lugar – O Desinteresse pelo Interessante, de autoria de William Ribeiro 
4º lugar – O Melhor Elixir, de autoria de Antônio Wagner Bastos de Almeida 
5º lugar – A Crise do Calendário, de autoria de Sophia Roberto Cezário 
6º lugar – Um conto Interativo Sobre o Ser Humano, de autoria de Cristiana Ana Lima 
7º lugar – O Dicionário de Oratório, de autoria de Tiago Rafael dos Santos Alves 
8º lugar – O Homem Que Queria Aprender a Falar, de autoria de Renato Barbosa de Lima Júnior 
9º lugar – O Milagre da Água, de autoria de Maria Stela de Oliveira Gomes 
10º lugar – A Esperança, de autoria de Maria das Graças Loures Vieira 
11º lugar – Brilho Radiante do Sol, de autoria de Álvaro Celso Mendes 
12º lugar – Por que as Letras e não os Números? , de autoria de Lucas Soares Alves Cruz.
Todos os classificados serão homenageados em sessão solene da AMLM – a ser confirmada para o mês de dezembro – e receberão, além da medalha e ou do diploma, 5 (cinco) exemplares da publicação “Obreiros Literários”, da Academia, contendo textos dos acadêmicos e dos classificados neste concurso literário.
Caratinga, 23 de setembro de 2018. Eugênio Maria Gomes Geraldo Elísio Fontoura de Oliveira Presidente Secretário

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Alzheimer Cultural



 A lembrança das labaredas ainda está na mente, mesmo à distância e pela TV a triste cena da destruição do Museu Nacional, localizado no Rio de Janeiro, insiste em provocar um sentimento de raiva, revolta e tristeza. Ver a memória se apagando aos poucos deveria ser um motivo de preocupação, mas no Brasil, infelizmente, não parece ser o caso.

Tenho tentado achar uma explicação, um jeito de provocar uma reflexão, de mostrar a falta que a memória, que a cultura faz para um povo, para uma nação, e o caminho foi fazer uma analogia com uma das doenças mais desafiadoras dos últimos anos, o Alzheimer.

Sabemos que quem é acometido pelo Alzheimer aos poucos vai perdendo a memória e em muitos dos casos de forma vagarosa. Além do esquecimento de nomes, lugares, pessoas, o portador de Alzheimer começa a ter atitudes que ele não teria se não tivesse portando a doença. Por isso, ele passa a requerer cuidados super especiais, senão pode provocar acidentes com ele e/ou com os que estão ao seu redor, como por exemplo, queimar-se em um fogão, ingerir alguma substância tóxica, cortar-se; enfim, por perder a memória aos poucos vai perdendo a percepção de perigo. E o fim da vida costuma ser sobre uma cama, praticamente de forma desfigurada pela atrofia muscular.

Imagino que o mesmo acontece quando um povo vai perdendo sua memória, vagarosamente ele vai se desumanizando. E os sintomas de um povo sem memória é o mesmo de uma pessoa com Alzheimer. Primeiro, vai esquecendo sua própria história, em seguida, começa, mesmo que sem querer ou perceber, o seu processo de autodestruição.

Um povo sem memória tende a repetir os mesmos erros do passado; torna-se intolerante, estúpido e grosseiro; defende a justiça com as próprias mãos; um povo sem memória, não consegue ser patriota, valorizar suas conquistas, seus patrimônios históricos, culturais e naturais. Um povo sem memória não consegue sair dos seus problemas sociais, pois nunca enxerga as causas dos problemas e vive eternamente combatendo as consequências, o que nunca tem fim. Um povo sem memória orgulha-se da baixaria e da própria pequenez das suas atitudes.

A cada lapso e destruição da nossa memória coletiva, o nosso Alzheimer Cultural vai ficando mais evidente e enraizado, vai se fortificando e tornando-se cada dia mais irreversível. E conseguimos perceber os sintomas de um povo que está acometido pelo Alzheimer Cultural quando ele simplesmente não se importa com nada e passa a não se reconhecer na própria história; quando não consegue perceber a destruição de si mesmo pois não se percebeu perdendo memória.

As piores labaredas não estão nos objetos, mas sim nos neurônios, na mente, na essência de cada um de nós. Um povo sem memória é um povo sem história. O fim de um povo sem cultura é atrofiar-se nas suas próprias mazelas.



Walber Gonçalves de Souza é professor e membro das Academias de Letras de Caratinga (ACL), Teófilo Otoni (ALTO) e Maçônica do Leste de Minas (AMLM).

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Combater o bom combate



Às vezes nos perguntamos o que precisaríamos fazer ou realizar para sermos seres melhores. Sabemos que evoluir é uma constante e modificar-se também, faz parte da vida e seus inexplicáveis mistérios, todavia esperamos ou deveríamos querer que este processo fosse significativo, portanto, com consequências positivas.

Alguns povos/nações apresentam alto índice de qualidade de vida, buscam um equilíbrio social que permite que a dignidade humana seja uma realidade, que possa ser de fato percebida e vivida pelas pessoas. Mas o que eles fazem para atingir tal estágio social? Que comportamentos, sentimentos, atitudes estão presentes nestes grupos? Pois não é possível acreditar que tal realidade não requer um mínimo comprometimento das pessoas diretamente envolvidas na sociedade em questão.

O comprometimento das pessoas com a própria sociedade em que ela se insere diz tudo sobre ela. Nunca teremos pessoas perfeitas, mas sempre poderemos ter e ser pessoas melhores. Talvez aí esteja o segredo de tantos povos que conseguem ser sempre lembrados como uma sociedade mais digna de se viver.

Há um ditado que diz que o “mundo muda quando a gente muda”, pode até ser um clichê, uma frase de efeito como muitos afirmam, mas não deixa de ter um fundo de razão que nos permite uma profunda reflexão, pois não há mudança somente nos outros e nas coisas. A mudança que queremos deve partir de cada um de nós, através, entre outras coisas, da generosidade, companheirismo, zelo pelos outros, cuidado com o ambiente, busca pela justiça, enfim, promovendo o cuidado com a vida e de tudo que dela provém.

Precisamos ter coragem de combater o bom combate. Que nada mais é do que o combate que travamos conosco mesmo. Onde a busca em ser melhor deveria ser o norte a seguir. Superar limites, acreditar nas potencialidades, realizar, mexer-se constantemente também significa combater o bom combate.

Há um pensador que afirma que somos a média das pessoas que convivemos, dos livros que lemos, dos ambientes que frequentamos. Se faz sentido o que ele propaga, torna-se uma boa forma de auto avaliação. Basta analisar com quem andamos, que livros fazem parte da nossa vida e quais ambientes costumamos estar presentes. Feita a análise, hora de tomar a atitude e ver em que podemos ser melhores.

O que não dá mais é ficar sempre jogando a culpa nos outros e por consequência transferindo a responsabilidade. Ao travarmos o bom combate, ganhamos individualmente, pois nos conhecemos cada vez mais e ao mesmo tempo abrimos a possibilidade de criar um ambiente coletivo mais harmonioso.

E a grande questão é que nunca é tarde para sermos melhores. Precisamos somente de um pouco de coragem para admitirmos a renovação, a mudança que queremos, mas não esqueçamos das pessoas, dos livros e ambientes, eles são fundamentais.


Walber Gonçalves de Souza é professor e membro das Academias de Letras de Caratinga (ACL), Teófilo Otoni (ALTO) e Maçônica do Leste de Minas (AMLM).
 

sábado, 8 de setembro de 2018

O que aprendi com os quadrinhos


Desde bem cedo minha mãe me abençoou com o convívio com os livros. Em casa sempre havia uma estante cheia deles, de todos os assuntos. Os que mais me fascinavam eram os de história e geografia, que ela recebia da editora por ser professora e trabalhar na direção de um colégio da rede estadual. Alguns eram livros novos, daqueles de versão do professor, com comentários em letras vermelhas. Outros, os meus preferidos, eram livros velhos e de páginas já amareladas, com o cheiro característico da batalha da celulose contra o tempo.

Um desses meus livros preferidos eram os da coleção Globerama: O Mundo Através do Tempo, uma enciclopédia ilustrada que tinha o perfeito subtítulo “Tesouro de Conhecimentos Ilustrado”. Minha mãe os havia ganhado de seu tio avô quando ela estava ainda no ensino fundamental. Na minha infância, nos anos 80, muito do conteúdo destes livros já estava ultrapassado, pois se tratava de uma publicação dos anos 50-60, mas para mim – em minha imaginação – eram uma fonte de conhecimento universal ilimitada, o que o Google viria a ser para as gerações atuais.

Destes livros o conhecimento me fascinava, mas o que me hipnotizava por horas a fio eram as ilustrações. Altamente detalhadas, ricas, tecnicistas mas elegantes, como só o traço francês – origem destes livros – sabe ser.

Conquistado pela fusão leitura-ilustração, o passo seguinte nesta jornada também foi incentivado pela minha mãe. O meu primeiro material de leitura, de minha propriedade, só meu, foram as revistas em quadrinhos.

As do Maurício de Souza eram muito legais. Eu podia estar imerso em um mundo de fantasia e desenho com paralelos incríveis com o meu entorno. Turminha da rua, jogar bola, pegar frutas no terreno do vizinho, invenções e planos infalíveis. Maurício de Souza acertava em cheio ao levar para o papel fragmentos da infância que muitos brasileiros viveram e viviam.

Mas nesta primeira infância as publicações que me pegaram de jeito foram as da Disney. Os temas e roteiros não eram nada adaptados ao mercado brasileiro, muito pelo contrário. As histórias eram repletas de lendas e modo de vida americanizado, com seus costumes, referências históricas e climas. Imagino hoje o esforço que os tradutores aqui no Brasil faziam na época para adaptar o roteiro ao nosso entendimento.

Mais uma vez, agora com a Disney, o traço das publicações chamou minha atenção. Só que de uma forma diferente. Eu agora era atraído pelo background, os desenhos que servem de fundo à cena do quadrinho. Os da Disney se destacavam, para mim, por mostrarem os cenários e ambientes cheios de detalhes, sombras e uma combinação de cores atraentes. Eu não sabia, ainda, mas o que fixava meu olhar naqueles desenhos, que para os outros era secundário, era a sua precisão arquitetônica. Eram perspectivas que nos transportavam para dentro da história e davam a dimensão precisa do que o roteirista e o autor queriam dizer naquele exato momento. Eu não podia ver a hora de chegarem as férias escolares para minha mãe comprar o Almanaque de Férias Disney, que trazia, além das melhores histórias da temporada, muitas atividades como cruzadas, caça-palavras, enigmas e tudo mais que as crianças, como eu, na década de 80 podiam se divertir e não precisavam de pilha ou wi-fi.

Desta época sinto muita saudade também do Globinho. Um encarte que vinha aos domingos no jornal O Globo e que trazia tirinhas do Zé do Boné, Hagar, Recruta Zero, Dick Tracy e Calvin e Haroldo. Eu ainda posso sentir o cheiro da tinta e do papel jornal destes gibis.

Na pré-adolescência eu descobri, além de outras coisas, os Comic Books, os quadrinhos de heróis. Na casa de um primo mais velho, que tinha estas e outras revistas escondidas embaixo da cama.

Nesta fase eu lia todos. Todos os que, por graça de Odin, chegavam à região metropolitana do Rio de Janeiro na década de 80. Os que me encantavam mais eram os do Batman e do Homem de Ferro. Estes dois heróis não tinham força sobre-humana, poderes sobrenaturais, ou uma linhagem da qual deveriam cumprir o legado. Eram homens que desafiavam os vilões da fantasia com ideias.

A idade adulta chegou e com ela vieram muitos boletos e grandes responsabilidades (já avisava o tio Ben). A descoberta de novos interesses de conhecimento, a fase da busca e acúmulo da bagagem técnica profissional, enfim, fui descobrindo como todos o outro lado da fronteira de nossas pequenas cidades, mas nunca deixei de admirar o Homem de Ferro.

Até que, no ano de 2008, uma notícia encheu os velhos jovens nerds de alegria. Chegaria ao cinema, com toda a tecnologia disponível em nosso tempo, o filme do Homem de Ferro. Foi um sucesso tremendo. Que deu origem a nada mais nada menos que 19 filmes que nos últimos 10 anos foram os maiores sucessos de público e faturamento do cinema mundial.

Foi uma grande alegria ver um super-herói que de super só tem o seu intelecto e sua vontade, ser representado no cinema em uma posição de protagonismo e liderança. Isto é, em minha opinião, bastante simbólico para as gerações atuais.

Algumas características que os criadores do Homem de Ferro em 1963 o deram e que o tornam tão humano e o aproximam de um homem comum: Tony Stark não tem identidade secreta, todo mundo sabe quem ele é e onde mora; Ele é rico, por herança, mas entendeu o impacto das atividades do pai na sociedade e mudou completamente a empresa da família, inclusive multiplicando em muitas vezes esta fortuna; Antes de encarar as empresas do pai e o combate ao crime, estudou muito, alcançando mestrado em engenharia elétrica e física no MIT; Enfrentou problemas com álcool e depressão, tendo na sequencia superado e procurado ajudar outras pessoas com o mesmo problema; Ele tem problemas de relacionamento, não conseguindo por consequência do seu temperamento e da sua entrega ao trabalho, formar uma família; Ele utiliza os meios de que dispõe para construir soluções que o auxiliam e aos outros a enfrentar grandes desafios, e quando estas soluções causam danos colaterais, ele se apresenta como responsável e encara as consequências.

Enfim, Tony Stark, o Homem de Ferro, com sua soberba, arrogância, inteligência, bom-humor, patriotismo, fidelidade e honra, tem muito a nos ensinar com seus erros e com seus acertos.

O que me motivou escrever este texto foi um presente incrível que ganhei. Minha amada esposa Jocinéia e minha nerd filha Lara me presentearam com uma edição especial da revista Tales of Suspense nº 39 de 1963, que é nada mais nada menos que a primeira aparição do Homem de Ferro nas histórias em quadrinhos. Um tesouro que não empresto e não vendo.

Esta história não tem fim. Termina e recomeça sempre que quisermos e precisarmos. Mas como no final de todo quadrinho, aqui cabem os créditos e agradecimentos.

Em toda essa epopeia agradeço a minha mãe Lurdinha, por ter me deixado mexer em todos os livros; ao meu pai Odilon por ter me ensinado a gostar de jornal; a minha esposa e filha por aturarem e compartilharem estes gostos; e a Stan Lee, por ter criado este e tantos outros personagens que nos divertem ensinando e nos ensinam divertindo.

E, parafraseando o encerramento dos textos deste mestre da fantasia dos quadrinhos, eu não poderia perder a oportunidade de um dia escrever:

Excelsior!


Artigo publicado no Diário de Caratinga.






FLÁVIO DE ABREU RADAMARKER é Membro da Loja Maçônica Joaquim Rodrigues D´Abreu Nº 1921 – Niterói – RJ. Formado em Arquitetura e Urbanismo pela UFRJ e extensão internacional em Marketing pela Youngstown State University – Ohio. É Arquiteto especialista em design de varejo e Perito Judicial. É Membro Correspondente da AMLM.

Acadêmico Rogério Vaz de Oliveira recebe Prêmio Jucá Santos


O 8° Prêmio Jucá Santos, promovido pela Real Academia de Letras de Porto Alegre, em parceria com a Academia Maceioense de Letras reconheceu e premiou inúmeros escritores do Brasil e Exterior. O evento ocorreu na cidade de Maceió e foi prestigiado por autoridades militares, civis, escritores e poetas.

O Acadêmico Rogério Vaz de Oliveira, membro da Academia de Letras do Rio Grande do Sul e Academia Maçônica de Letras do Leste de Minas-AMLM, foi homenageado com o Prêmio Jucá Santos, pelo conjunto de sua obra, recebendo o Colar da Real Academia de Letras de Porto Alegre, diploma e exemplares da Antologia - Jucá Santos.



segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Onde Deus está?

porta-fechada-cadeado-coração

José, um cidadão do interior de Minas, andava meio cismado com um incômodo no peito, sentido nos últimos dias. Não era propriamente uma dor, mas, um aperto, uma sensação ruim. Em conversa com um amigo e colega de trabalho, ouviu dele o seguinte: “Veja se isso não é falta de Deus. Deus está sempre por perto, mas, é preciso que abramos a porta e o convidemos a entrar”. Tal afirmativa encontrou guarida no pensamento de José e uma pergunta passou a martelar o seu juízo: o que significaria “Abrir a porta para Deus”?

Pouco tempo depois, José saiu do trabalho e dirigiu-se ao caixa eletrônico de uma instituição bancária. No retorno, ao passar perto de uma igreja, resolveu fazer algumas preces, na tentativa de responder a tal pergunta, incrustada em sua mente. Logo na entrada do templo havia um rapaz, com jeito de ter uns 30 anos, encostado no portal. Assim que ele avistou José, ergueu uma das mãos, com a palma virada para cima e lhe solicitou ajuda para poder comprar comida. José olhou aquele rapaz jovem, aparentemente forte e, sem sequer responder ao seu pedido, dirigiu-se à pequena capela de adoração, enquanto pensava o quanto era absurdo aquele jovem pedir esmolas em vez de procurar trabalho. De joelhos, José rezou por alguns minutos, com tanto fervor que, por pouco, sua aura não foi vista. Ao sair da igreja, pelo mesmo portal de entrada, apenas olhou mais uma vez o rapaz e seguiu o seu caminho. Permaneceu com a mesma sensação de “peito apertado”, de porta fechada para Deus… E, assim, ele terminou o dia.

José chegou a sua casa cansado, estressado, depois de um dia intenso de trabalho. Mal respondeu ao cumprimento da esposa, chamou a atenção do filho por conta de um barulho qualquer, não respondeu ao pedido de bênção de sua filha e foi truculento com a empregada, por conta de um pijama que não havia sido passado. Sua esposa ainda terminava o jantar quando ele se serviu, pegou o prato e dirigiu-se ao sofá, intercalando a mastigação com o olhar atento no telejornal. Comeu feito um leão, engolindo rapidamente a comida, sem qualquer cerimônia, sem qualquer agradecimento e, em pouco tempo, roncava em frente à televisão, sendo arrastado pela esposa até a cama. Deitado, lembrou-se da frase “Abrir a porta para Deus” e fez a oração da noite… Rezou e dormiu, com a mesma sensação de “peito apertado”, de porta fechada para Deus… E, assim, ele passou a noite.

No dia seguinte, José acordou cedo. Sentado na beirada da cama, lembrou-se da “porta fechada” e fez sua oração da manhã. Agradeceu a noite e pediu pelo dia que estava começando. Entrou no chuveiro, gritou a mulher e reclamou por conta da toalha que não estava no lugar de costume. Reclamou do café mais fraco do que o habitual, falou um palavrão ao tropeçar em um brinquedo, maldisse a vida, entrou no carro, sem dar tchau ou dirigir qualquer palavra à esposa e aos filhos que ficaram à mesa, fazendo o desjejum. Ele deu partida no motor e, mais uma vez, não gostou de seu barulho. Fez o sinal da cruz, e partiu com a mesma sensação de “peito apertado”, de porta fechada para Deus… E, assim, ele iniciou o dia.

Naquele dia, o barulho do motor sobrepôs-se por um instante à afirmativa “Abrir a porta para Deus” e ocupou seu pensamento, fazendo-o concluir que era preciso trocar seu automóvel. O carro já tinha mais de três anos de uso e já estava com mais de cem mil quilômetros rodados. José desejava um carro maior, com mais acessórios, mas queria fazer a troca sem assumir prestações e, também, sem desembolsar muito dinheiro. Se havia uma coisa que José sabia fazer era auferir lucro fácil, passar a perna nos outros e aumentar a conta bancária. No final do dia, estava de carro novo. Porém, antes de sair com o seu possante da concessionária, José lembrou-se novamente da tal “porta fechada para Deus” e fez uma oração, agradecido que estava por tudo dar tão certo em sua vida. Em seguida, foi dar aquela voltinha, desfilando o fruto de seu sucesso. Desfilou com a mesma sensação de “peito apertado”, de porta fechada para Deus… E, assim, ele passeou pela cidade.

José voltou a procurar o colega de trabalho e amigo que havia lhe falado sobre Deus e as portas que podem ser abertas para Ele entrar, em busca de respostas para o seu “peito apertado”, para a sensação de “Falta de Deus”. Relatou-lhe os últimos acontecimentos, firme no entendimento de que era um homem de sorte. Tinha fé, família, trabalho, dinheiro e o olhar de admiração das pessoas. Apenas lhe faltava o alívio no peito, a boa sensação da presença de Deus. Do amigo, recebeu a seguinte resposta: “Abrir a porta para Deus significa, muito mais, do que ajoelhar-se no banco da igreja, apresentar-se piedoso ou rezar a cada ação desenvolvida. Abrir a porta para Deus entrar, significa, também, ser bom, justo, sincero, honesto, leal e caridoso”.

De certo, mesmo sendo Deus, Ele não entrará em nenhuma casa, sem ser convidado. Ademais, Ele certamente tem mais coisa a fazer que sair derrubando portas que insistem em permanecer fechadas. Rezar abre portas, porquanto o convite para Deus entrar é feito através das boas obras. “Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta”. (Tiago 2:26).

Eugênio Maria Gomes – professor, apresentador e escritor