quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Alzheimer Cultural



 A lembrança das labaredas ainda está na mente, mesmo à distância e pela TV a triste cena da destruição do Museu Nacional, localizado no Rio de Janeiro, insiste em provocar um sentimento de raiva, revolta e tristeza. Ver a memória se apagando aos poucos deveria ser um motivo de preocupação, mas no Brasil, infelizmente, não parece ser o caso.

Tenho tentado achar uma explicação, um jeito de provocar uma reflexão, de mostrar a falta que a memória, que a cultura faz para um povo, para uma nação, e o caminho foi fazer uma analogia com uma das doenças mais desafiadoras dos últimos anos, o Alzheimer.

Sabemos que quem é acometido pelo Alzheimer aos poucos vai perdendo a memória e em muitos dos casos de forma vagarosa. Além do esquecimento de nomes, lugares, pessoas, o portador de Alzheimer começa a ter atitudes que ele não teria se não tivesse portando a doença. Por isso, ele passa a requerer cuidados super especiais, senão pode provocar acidentes com ele e/ou com os que estão ao seu redor, como por exemplo, queimar-se em um fogão, ingerir alguma substância tóxica, cortar-se; enfim, por perder a memória aos poucos vai perdendo a percepção de perigo. E o fim da vida costuma ser sobre uma cama, praticamente de forma desfigurada pela atrofia muscular.

Imagino que o mesmo acontece quando um povo vai perdendo sua memória, vagarosamente ele vai se desumanizando. E os sintomas de um povo sem memória é o mesmo de uma pessoa com Alzheimer. Primeiro, vai esquecendo sua própria história, em seguida, começa, mesmo que sem querer ou perceber, o seu processo de autodestruição.

Um povo sem memória tende a repetir os mesmos erros do passado; torna-se intolerante, estúpido e grosseiro; defende a justiça com as próprias mãos; um povo sem memória, não consegue ser patriota, valorizar suas conquistas, seus patrimônios históricos, culturais e naturais. Um povo sem memória não consegue sair dos seus problemas sociais, pois nunca enxerga as causas dos problemas e vive eternamente combatendo as consequências, o que nunca tem fim. Um povo sem memória orgulha-se da baixaria e da própria pequenez das suas atitudes.

A cada lapso e destruição da nossa memória coletiva, o nosso Alzheimer Cultural vai ficando mais evidente e enraizado, vai se fortificando e tornando-se cada dia mais irreversível. E conseguimos perceber os sintomas de um povo que está acometido pelo Alzheimer Cultural quando ele simplesmente não se importa com nada e passa a não se reconhecer na própria história; quando não consegue perceber a destruição de si mesmo pois não se percebeu perdendo memória.

As piores labaredas não estão nos objetos, mas sim nos neurônios, na mente, na essência de cada um de nós. Um povo sem memória é um povo sem história. O fim de um povo sem cultura é atrofiar-se nas suas próprias mazelas.



Walber Gonçalves de Souza é professor e membro das Academias de Letras de Caratinga (ACL), Teófilo Otoni (ALTO) e Maçônica do Leste de Minas (AMLM).

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Combater o bom combate



Às vezes nos perguntamos o que precisaríamos fazer ou realizar para sermos seres melhores. Sabemos que evoluir é uma constante e modificar-se também, faz parte da vida e seus inexplicáveis mistérios, todavia esperamos ou deveríamos querer que este processo fosse significativo, portanto, com consequências positivas.

Alguns povos/nações apresentam alto índice de qualidade de vida, buscam um equilíbrio social que permite que a dignidade humana seja uma realidade, que possa ser de fato percebida e vivida pelas pessoas. Mas o que eles fazem para atingir tal estágio social? Que comportamentos, sentimentos, atitudes estão presentes nestes grupos? Pois não é possível acreditar que tal realidade não requer um mínimo comprometimento das pessoas diretamente envolvidas na sociedade em questão.

O comprometimento das pessoas com a própria sociedade em que ela se insere diz tudo sobre ela. Nunca teremos pessoas perfeitas, mas sempre poderemos ter e ser pessoas melhores. Talvez aí esteja o segredo de tantos povos que conseguem ser sempre lembrados como uma sociedade mais digna de se viver.

Há um ditado que diz que o “mundo muda quando a gente muda”, pode até ser um clichê, uma frase de efeito como muitos afirmam, mas não deixa de ter um fundo de razão que nos permite uma profunda reflexão, pois não há mudança somente nos outros e nas coisas. A mudança que queremos deve partir de cada um de nós, através, entre outras coisas, da generosidade, companheirismo, zelo pelos outros, cuidado com o ambiente, busca pela justiça, enfim, promovendo o cuidado com a vida e de tudo que dela provém.

Precisamos ter coragem de combater o bom combate. Que nada mais é do que o combate que travamos conosco mesmo. Onde a busca em ser melhor deveria ser o norte a seguir. Superar limites, acreditar nas potencialidades, realizar, mexer-se constantemente também significa combater o bom combate.

Há um pensador que afirma que somos a média das pessoas que convivemos, dos livros que lemos, dos ambientes que frequentamos. Se faz sentido o que ele propaga, torna-se uma boa forma de auto avaliação. Basta analisar com quem andamos, que livros fazem parte da nossa vida e quais ambientes costumamos estar presentes. Feita a análise, hora de tomar a atitude e ver em que podemos ser melhores.

O que não dá mais é ficar sempre jogando a culpa nos outros e por consequência transferindo a responsabilidade. Ao travarmos o bom combate, ganhamos individualmente, pois nos conhecemos cada vez mais e ao mesmo tempo abrimos a possibilidade de criar um ambiente coletivo mais harmonioso.

E a grande questão é que nunca é tarde para sermos melhores. Precisamos somente de um pouco de coragem para admitirmos a renovação, a mudança que queremos, mas não esqueçamos das pessoas, dos livros e ambientes, eles são fundamentais.


Walber Gonçalves de Souza é professor e membro das Academias de Letras de Caratinga (ACL), Teófilo Otoni (ALTO) e Maçônica do Leste de Minas (AMLM).
 

sábado, 8 de setembro de 2018

O que aprendi com os quadrinhos


Desde bem cedo minha mãe me abençoou com o convívio com os livros. Em casa sempre havia uma estante cheia deles, de todos os assuntos. Os que mais me fascinavam eram os de história e geografia, que ela recebia da editora por ser professora e trabalhar na direção de um colégio da rede estadual. Alguns eram livros novos, daqueles de versão do professor, com comentários em letras vermelhas. Outros, os meus preferidos, eram livros velhos e de páginas já amareladas, com o cheiro característico da batalha da celulose contra o tempo.

Um desses meus livros preferidos eram os da coleção Globerama: O Mundo Através do Tempo, uma enciclopédia ilustrada que tinha o perfeito subtítulo “Tesouro de Conhecimentos Ilustrado”. Minha mãe os havia ganhado de seu tio avô quando ela estava ainda no ensino fundamental. Na minha infância, nos anos 80, muito do conteúdo destes livros já estava ultrapassado, pois se tratava de uma publicação dos anos 50-60, mas para mim – em minha imaginação – eram uma fonte de conhecimento universal ilimitada, o que o Google viria a ser para as gerações atuais.

Destes livros o conhecimento me fascinava, mas o que me hipnotizava por horas a fio eram as ilustrações. Altamente detalhadas, ricas, tecnicistas mas elegantes, como só o traço francês – origem destes livros – sabe ser.

Conquistado pela fusão leitura-ilustração, o passo seguinte nesta jornada também foi incentivado pela minha mãe. O meu primeiro material de leitura, de minha propriedade, só meu, foram as revistas em quadrinhos.

As do Maurício de Souza eram muito legais. Eu podia estar imerso em um mundo de fantasia e desenho com paralelos incríveis com o meu entorno. Turminha da rua, jogar bola, pegar frutas no terreno do vizinho, invenções e planos infalíveis. Maurício de Souza acertava em cheio ao levar para o papel fragmentos da infância que muitos brasileiros viveram e viviam.

Mas nesta primeira infância as publicações que me pegaram de jeito foram as da Disney. Os temas e roteiros não eram nada adaptados ao mercado brasileiro, muito pelo contrário. As histórias eram repletas de lendas e modo de vida americanizado, com seus costumes, referências históricas e climas. Imagino hoje o esforço que os tradutores aqui no Brasil faziam na época para adaptar o roteiro ao nosso entendimento.

Mais uma vez, agora com a Disney, o traço das publicações chamou minha atenção. Só que de uma forma diferente. Eu agora era atraído pelo background, os desenhos que servem de fundo à cena do quadrinho. Os da Disney se destacavam, para mim, por mostrarem os cenários e ambientes cheios de detalhes, sombras e uma combinação de cores atraentes. Eu não sabia, ainda, mas o que fixava meu olhar naqueles desenhos, que para os outros era secundário, era a sua precisão arquitetônica. Eram perspectivas que nos transportavam para dentro da história e davam a dimensão precisa do que o roteirista e o autor queriam dizer naquele exato momento. Eu não podia ver a hora de chegarem as férias escolares para minha mãe comprar o Almanaque de Férias Disney, que trazia, além das melhores histórias da temporada, muitas atividades como cruzadas, caça-palavras, enigmas e tudo mais que as crianças, como eu, na década de 80 podiam se divertir e não precisavam de pilha ou wi-fi.

Desta época sinto muita saudade também do Globinho. Um encarte que vinha aos domingos no jornal O Globo e que trazia tirinhas do Zé do Boné, Hagar, Recruta Zero, Dick Tracy e Calvin e Haroldo. Eu ainda posso sentir o cheiro da tinta e do papel jornal destes gibis.

Na pré-adolescência eu descobri, além de outras coisas, os Comic Books, os quadrinhos de heróis. Na casa de um primo mais velho, que tinha estas e outras revistas escondidas embaixo da cama.

Nesta fase eu lia todos. Todos os que, por graça de Odin, chegavam à região metropolitana do Rio de Janeiro na década de 80. Os que me encantavam mais eram os do Batman e do Homem de Ferro. Estes dois heróis não tinham força sobre-humana, poderes sobrenaturais, ou uma linhagem da qual deveriam cumprir o legado. Eram homens que desafiavam os vilões da fantasia com ideias.

A idade adulta chegou e com ela vieram muitos boletos e grandes responsabilidades (já avisava o tio Ben). A descoberta de novos interesses de conhecimento, a fase da busca e acúmulo da bagagem técnica profissional, enfim, fui descobrindo como todos o outro lado da fronteira de nossas pequenas cidades, mas nunca deixei de admirar o Homem de Ferro.

Até que, no ano de 2008, uma notícia encheu os velhos jovens nerds de alegria. Chegaria ao cinema, com toda a tecnologia disponível em nosso tempo, o filme do Homem de Ferro. Foi um sucesso tremendo. Que deu origem a nada mais nada menos que 19 filmes que nos últimos 10 anos foram os maiores sucessos de público e faturamento do cinema mundial.

Foi uma grande alegria ver um super-herói que de super só tem o seu intelecto e sua vontade, ser representado no cinema em uma posição de protagonismo e liderança. Isto é, em minha opinião, bastante simbólico para as gerações atuais.

Algumas características que os criadores do Homem de Ferro em 1963 o deram e que o tornam tão humano e o aproximam de um homem comum: Tony Stark não tem identidade secreta, todo mundo sabe quem ele é e onde mora; Ele é rico, por herança, mas entendeu o impacto das atividades do pai na sociedade e mudou completamente a empresa da família, inclusive multiplicando em muitas vezes esta fortuna; Antes de encarar as empresas do pai e o combate ao crime, estudou muito, alcançando mestrado em engenharia elétrica e física no MIT; Enfrentou problemas com álcool e depressão, tendo na sequencia superado e procurado ajudar outras pessoas com o mesmo problema; Ele tem problemas de relacionamento, não conseguindo por consequência do seu temperamento e da sua entrega ao trabalho, formar uma família; Ele utiliza os meios de que dispõe para construir soluções que o auxiliam e aos outros a enfrentar grandes desafios, e quando estas soluções causam danos colaterais, ele se apresenta como responsável e encara as consequências.

Enfim, Tony Stark, o Homem de Ferro, com sua soberba, arrogância, inteligência, bom-humor, patriotismo, fidelidade e honra, tem muito a nos ensinar com seus erros e com seus acertos.

O que me motivou escrever este texto foi um presente incrível que ganhei. Minha amada esposa Jocinéia e minha nerd filha Lara me presentearam com uma edição especial da revista Tales of Suspense nº 39 de 1963, que é nada mais nada menos que a primeira aparição do Homem de Ferro nas histórias em quadrinhos. Um tesouro que não empresto e não vendo.

Esta história não tem fim. Termina e recomeça sempre que quisermos e precisarmos. Mas como no final de todo quadrinho, aqui cabem os créditos e agradecimentos.

Em toda essa epopeia agradeço a minha mãe Lurdinha, por ter me deixado mexer em todos os livros; ao meu pai Odilon por ter me ensinado a gostar de jornal; a minha esposa e filha por aturarem e compartilharem estes gostos; e a Stan Lee, por ter criado este e tantos outros personagens que nos divertem ensinando e nos ensinam divertindo.

E, parafraseando o encerramento dos textos deste mestre da fantasia dos quadrinhos, eu não poderia perder a oportunidade de um dia escrever:

Excelsior!


Artigo publicado no Diário de Caratinga.






FLÁVIO DE ABREU RADAMARKER é Membro da Loja Maçônica Joaquim Rodrigues D´Abreu Nº 1921 – Niterói – RJ. Formado em Arquitetura e Urbanismo pela UFRJ e extensão internacional em Marketing pela Youngstown State University – Ohio. É Arquiteto especialista em design de varejo e Perito Judicial. É Membro Correspondente da AMLM.

Acadêmico Rogério Vaz de Oliveira recebe Prêmio Jucá Santos


O 8° Prêmio Jucá Santos, promovido pela Real Academia de Letras de Porto Alegre, em parceria com a Academia Maceioense de Letras reconheceu e premiou inúmeros escritores do Brasil e Exterior. O evento ocorreu na cidade de Maceió e foi prestigiado por autoridades militares, civis, escritores e poetas.

O Acadêmico Rogério Vaz de Oliveira, membro da Academia de Letras do Rio Grande do Sul e Academia Maçônica de Letras do Leste de Minas-AMLM, foi homenageado com o Prêmio Jucá Santos, pelo conjunto de sua obra, recebendo o Colar da Real Academia de Letras de Porto Alegre, diploma e exemplares da Antologia - Jucá Santos.



segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Onde Deus está?

porta-fechada-cadeado-coração

José, um cidadão do interior de Minas, andava meio cismado com um incômodo no peito, sentido nos últimos dias. Não era propriamente uma dor, mas, um aperto, uma sensação ruim. Em conversa com um amigo e colega de trabalho, ouviu dele o seguinte: “Veja se isso não é falta de Deus. Deus está sempre por perto, mas, é preciso que abramos a porta e o convidemos a entrar”. Tal afirmativa encontrou guarida no pensamento de José e uma pergunta passou a martelar o seu juízo: o que significaria “Abrir a porta para Deus”?

Pouco tempo depois, José saiu do trabalho e dirigiu-se ao caixa eletrônico de uma instituição bancária. No retorno, ao passar perto de uma igreja, resolveu fazer algumas preces, na tentativa de responder a tal pergunta, incrustada em sua mente. Logo na entrada do templo havia um rapaz, com jeito de ter uns 30 anos, encostado no portal. Assim que ele avistou José, ergueu uma das mãos, com a palma virada para cima e lhe solicitou ajuda para poder comprar comida. José olhou aquele rapaz jovem, aparentemente forte e, sem sequer responder ao seu pedido, dirigiu-se à pequena capela de adoração, enquanto pensava o quanto era absurdo aquele jovem pedir esmolas em vez de procurar trabalho. De joelhos, José rezou por alguns minutos, com tanto fervor que, por pouco, sua aura não foi vista. Ao sair da igreja, pelo mesmo portal de entrada, apenas olhou mais uma vez o rapaz e seguiu o seu caminho. Permaneceu com a mesma sensação de “peito apertado”, de porta fechada para Deus… E, assim, ele terminou o dia.

José chegou a sua casa cansado, estressado, depois de um dia intenso de trabalho. Mal respondeu ao cumprimento da esposa, chamou a atenção do filho por conta de um barulho qualquer, não respondeu ao pedido de bênção de sua filha e foi truculento com a empregada, por conta de um pijama que não havia sido passado. Sua esposa ainda terminava o jantar quando ele se serviu, pegou o prato e dirigiu-se ao sofá, intercalando a mastigação com o olhar atento no telejornal. Comeu feito um leão, engolindo rapidamente a comida, sem qualquer cerimônia, sem qualquer agradecimento e, em pouco tempo, roncava em frente à televisão, sendo arrastado pela esposa até a cama. Deitado, lembrou-se da frase “Abrir a porta para Deus” e fez a oração da noite… Rezou e dormiu, com a mesma sensação de “peito apertado”, de porta fechada para Deus… E, assim, ele passou a noite.

No dia seguinte, José acordou cedo. Sentado na beirada da cama, lembrou-se da “porta fechada” e fez sua oração da manhã. Agradeceu a noite e pediu pelo dia que estava começando. Entrou no chuveiro, gritou a mulher e reclamou por conta da toalha que não estava no lugar de costume. Reclamou do café mais fraco do que o habitual, falou um palavrão ao tropeçar em um brinquedo, maldisse a vida, entrou no carro, sem dar tchau ou dirigir qualquer palavra à esposa e aos filhos que ficaram à mesa, fazendo o desjejum. Ele deu partida no motor e, mais uma vez, não gostou de seu barulho. Fez o sinal da cruz, e partiu com a mesma sensação de “peito apertado”, de porta fechada para Deus… E, assim, ele iniciou o dia.

Naquele dia, o barulho do motor sobrepôs-se por um instante à afirmativa “Abrir a porta para Deus” e ocupou seu pensamento, fazendo-o concluir que era preciso trocar seu automóvel. O carro já tinha mais de três anos de uso e já estava com mais de cem mil quilômetros rodados. José desejava um carro maior, com mais acessórios, mas queria fazer a troca sem assumir prestações e, também, sem desembolsar muito dinheiro. Se havia uma coisa que José sabia fazer era auferir lucro fácil, passar a perna nos outros e aumentar a conta bancária. No final do dia, estava de carro novo. Porém, antes de sair com o seu possante da concessionária, José lembrou-se novamente da tal “porta fechada para Deus” e fez uma oração, agradecido que estava por tudo dar tão certo em sua vida. Em seguida, foi dar aquela voltinha, desfilando o fruto de seu sucesso. Desfilou com a mesma sensação de “peito apertado”, de porta fechada para Deus… E, assim, ele passeou pela cidade.

José voltou a procurar o colega de trabalho e amigo que havia lhe falado sobre Deus e as portas que podem ser abertas para Ele entrar, em busca de respostas para o seu “peito apertado”, para a sensação de “Falta de Deus”. Relatou-lhe os últimos acontecimentos, firme no entendimento de que era um homem de sorte. Tinha fé, família, trabalho, dinheiro e o olhar de admiração das pessoas. Apenas lhe faltava o alívio no peito, a boa sensação da presença de Deus. Do amigo, recebeu a seguinte resposta: “Abrir a porta para Deus significa, muito mais, do que ajoelhar-se no banco da igreja, apresentar-se piedoso ou rezar a cada ação desenvolvida. Abrir a porta para Deus entrar, significa, também, ser bom, justo, sincero, honesto, leal e caridoso”.

De certo, mesmo sendo Deus, Ele não entrará em nenhuma casa, sem ser convidado. Ademais, Ele certamente tem mais coisa a fazer que sair derrubando portas que insistem em permanecer fechadas. Rezar abre portas, porquanto o convite para Deus entrar é feito através das boas obras. “Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta”. (Tiago 2:26).

Eugênio Maria Gomes – professor, apresentador e escritor

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Um povo cansado

caminhão-antigo-painel-chave


Um povo cansado, passivo e inerte. Eis, até então, o retrato de nosso coletivo. Eventualmente alguns, em interesses próprios, bradam gritos de guerra e vibram bandeiras no ar. Assim tem sido a tônica de nossos anseios e angústias. Partidos políticos e correntes ideológicas, que deveriam espelhar a diversidade que permeia o sentimento da nação, se arvoram neste papel de faz de conta, bailando nas ondas do vento dos reclames na defesa de seus interesses internos e pessoais, distante do real destinatário e personagem de todas as angústias – o povo.

Em 2013, por ocasião da Copa das Confederações, esse mesmo povo saiu às ruas, no exercício do livre direito de manifestação, por míseros R$ 0,20 no aumento das passagens de ônibus. Esse foi o discurso daqueles que se sentiram incomodados. Leitura incorreta. Não foi pelo valor, mas sim pelo ideal e só pelo ideal que esse “povo” saiu de sua apatia e desinteresse pelas causas maiores e foi às ruas. Tudo corria em perfeita sintonia, quando então, alguns, sabe lá com que interesses e a mando de quem, puserem tudo a perder. Nas manifestações se via famílias inteiras, idosos, mulheres, crianças, enfim, o povo. Quando então, baderneiros puseram tudo a perder e a voz da multidão se rendeu à passividade e voltou aos lares. Foram rendidos pela balbúrdia. Não era isso que queriam e tinham em seus corações. Queriam, simplesmente, manifestar seu inconformismo com tudo e o todo.

Vieram as eleições e a divisão do povo imperou, tal como fora implantada por aqueles que estavam no poder. Eles contra nós. Nós contra eles. Foi reeleita a presidenta por míseros 3 milhões de votos de frente – afinal somos 200 milhões. Naquele pleito já se delineou o cenário de apatia do povo frente à política. Mais de 30 milhões não foram às urnas. Governo eleito sem a credibilidade de uma maioria. Desaguamos em um mais um processo de impeachment. Vozes roucas choramingam com o argumento de golpe, ante ao cumprimento do devido processo legal, garantia de que somos todos cidadãos e teremos nossos direitos respeitados, contudo, esse mesmo instrumento serve para nos fazer curvar aos nossos deveres. Assume um vice sem credibilidade, pois vem do mesmo cabedal. Contínua o martírio da nação.

O país dos políticos e interesses menores vem à tona com a Operação Lava Jato. Nunca antes na história deste país, tantos poderosos se viram diante da incauta Justiça. Lamentamos informar, mas é só o começo. Ainda veremos a podridão do poder enlamear a mídia diária, para nosso escândalo. A divisão do povo ainda persiste. Para alguns há bandido predileto, quando na verdade todos deveriam estar do lado da Lei e da Justiça, na proteção do coletivo. O povo a tudo assiste, inerte, passivo, como se a corrupção fosse parte de nosso DNA. Acredito que isto seja fruto de construção ideológica, pois sei o valor de nosso povo. Persistem as mazelas sociais e econômicas, o desemprego assola o país, o déficit fiscal assusta e afugenta o capital, o poder central não tem poder de reação. A crise se espalha para os demais entes federados.

De repente, eles, seres insignificantes para muitos, inclusive para o poder, se transformam em gigantes. Sem bandeiras partidárias, sem slogans e chavões prontos, dão o seu recado. Simplesmente pararam. Por consequência pararam o Brasil. O país parado chamou a todos à reflexão. Eles são nós. Nós estamos com eles e nos vemos neles. Eles, que são aclamados como heróis, pois conseguiram subjugar o monstro estatal e subverter a ordem das coisas, nos mostram que temos força e somos capazes de clamar e realizar mudanças.

Não é o preço dos combustíveis. É tudo. É a corrupção que corrompe a estrutura de poder e solapa as bases da igualdade social. É o pacto federativo que centraliza o fruto da arrecadação nas mãos do poder central, em detrimento da justa participação de recursos com os demais entes federados. São as benesses dadas a poucos, em detrimento de todos. É a insegurança de sequer poder se ir e vir em paz. É a miséria que assola a muitos. É a falta de trabalho. É o câncer que assola o sistema de saúde pública. É a indignação por não termos um sistema de educação público e gratuito para todos, do maternal ao ensino superior. É o colapso do sistema de transporte público. Afinal, é tudo que está errado.

O que mais nos incomoda é o desdém com que os governantes e a classe política tratam a situação. O discurso é que atender às legitimas reinvindicações dos caminhoneiros implicaria em perda de receita. Não vejo ninguém cortar na carne e propor cortar benefícios de classes privilegiadas, em especial a política, para compensar essas alegadas perdas. Recentemente, vimos um presidente da república que está preso por ter sido condenado, atendido o devido processo legal, se contrapor ao corte de suas regalias pós mandato. Isto é que está errado e não o direito de manifestação.

Rendo-me e me curvo a esses heróis caminhoneiros que representam toda a indignação do povo brasileiro. Estamos juntos. Volto no tempo e sinto a presença de meu saudoso pai, que enquanto neste mundo, também exerceu essa digna profissão e soluço ao lembrar-me da emoção de sua volta para casa, quando o freio a ar chiava e a buzina do seu bruto alardeava sua chegada, para nossa alegria. Viva o povo brasileiro. Viva aos nossos caminhoneiros que nos mostram que JUNTOS SOMOS IMBATÍVEIS.

CLÉSCIO CÉSAR GALVÃO é advogado e empresário, membro da Loja Maçônica General José Maria Moreira Guimarães – 1ª, de Belo Horizonte e Membro Correspondente da Academia Maçônica de Letras do Leste de Minas-AMLM

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Pontes ou muros?

ponte-sem-saida-vegetação-final


Aristóteles dizia que o ser humano é por natureza um “animal social”, ou em outras palavras um “ser social”.

Em nosso cotidiano nos deparamos com uma diversidade de situações em que, necessariamente, mantemos contato com o outro.

São diversos tipos de relacionamentos que mantemos em nossas vidas, tais como familiar, profissional, em entidades, condomínios e outros. Certo é que não se vive sem alguma experiência de interação social.

Certo é também que o “sucesso” do indivíduo está diretamente ligado à habilidade no trato e no contato com outras pessoas e, nesse sentido, a manutenção de relacionamentos “saudáveis” são assim uma poderosa chave, tanto para o crescimento pessoal quanto profissional.

Todavia, infelizmente, por vezes nossos relacionamentos apresentam obstáculos e dificuldades, que se não superados, são medida certa para diversos males e, até mesmo para o fracasso de uma empreitada.

Diversos contos e reflexões, encontrados em diversas mensagens que circulam nas redes sociais, nos trazem uma interessante comparação, que identificam o porquê do homem apresentar tantos problemas de relacionamento. A “lição” que tais textos trazem é que temos construído mais “muros” do que “pontes”.

Partindo deste ponto, podemos ver que há lógica e grande ensinamento nestas peças. Pensando “arquitetonicamente” muros isolam, separam, dividem. Pontes, ao invés, conectam, unem, aproximam. Filosoficamente então, muros são atitudes negativas que nos afastam e nos impedem de ver o bem no semelhante; Pontes são, ao contrário, boas ações que fortalecem e cultivam relacionamentos saudáveis.

Podemos usar como exemplos de tijolos que vamos construindo nossos “muros”, entre outros, a dificuldade em nos comunicarmos e, em especial a falta de sabedoria ao falarmos e também por não ouvirmos o outro com a devida atenção e zelo.

Quanto ao “saber” ouvir, certo é que, por vezes, ouvimos muito, mas escutamos realmente pouco. Ficamos ensimesmados, fechados em nossos conceitos, preconceitos, certezas inabaláveis e, porque não dizer, em nossas vaidades e arrogâncias. Ouvimos o outro, mas não damos às palavras dele a devida importância. Logo o interrompemos, contando nossas histórias, nossos casos, em uma ilusão que somos mais importantes que qualquer um.

E, neste atropelo, perdemos, frequentemente, preciosas oportunidades de aprendizado. Quer porque, simplesmente, não prestamos atenção naquilo que nos foi dito, ou pelo fato de que, por vezes falamos demais e acabamos por agredir, afastar, isolar ou humilhar.

Como é bom perceber alguém nos escutando de verdade, prestando de fato atenção naquilo que dizemos. Ora, se é bom ser escutado, também é ótimo escutar, estar disponível para o outro. Dar a ele a mesma sensação.

Já dizia RUBEM ALVES, no texto “ESCUTATÓRIA” (O amor que acende a lua, pág. 65. Ed. Papirus) que “escutar é complicado e sutil”, e que “não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma. “Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor”.

No outro sentido, por vezes, se utiliza palavras ríspidas no trato com o interlocutor, de tal modo, que criamos distâncias que se tornam praticamente intransponíveis.

Salomão já dizia com muita propriedade que “a resposta calma desvia a fúria, mas a palavra ríspida desperta a ira”. Provérbios – 15:1 e, ainda que “o homem irritável provoca dissensão, mas quem é paciente acalma a discussão”. Provérbios – 15:18

O autor de Provérbios nos convida à calma e à sensatez. A palavra sensata, dita no momento certo e da maneira correta, apazigua tempestades. De lado outro, palavras erradas ditas no momento errado levam ao fim vários relacionamentos.

Diz o dito popular que a palavra é igual flecha, uma vez proferida, não volta mais.

Neste aspecto cabe uma reflexão. Tenho construído pontes ou muros? Minhas atitudes com meus colegas, confrades, com meus familiares, colegas de trabalho, subordinados ou chefes estão criando relações saudáveis? Estou, por meio de minhas palavras isolando ou conectando pessoas?

Por fim, citando William Shakespeare “Se você se sente só, é porque ergueu muros em vez de pontes”.

ÁLISSON LÍVIO GONÇALVES CORRÊA é advogado. Membro da Loja Maçônica São João Evangelista de São João Evangelista/MG e Membro Efetivo da Academia Maçônica de Letras do Leste de Minas