quarta-feira, 28 de novembro de 2018

A primeira condição para mudar a realidade, consiste em conhecê-la



“A PRIMEIRA CONDIÇÃO PARA MUDAR A REALIDADE, CONSISTE EM CONHECÊ-LA”


A frase acima transcrita é de Eduardo Galeano, famoso escritor e jornalista uruguaio, morto em 2015. Um grande homem, filho de um grande país. Um pequeno grande país.

O Uruguai, com toda a sua pequenez territorial, tem muito a nos ensinar sobre sua grandeza como nação. Um dos menores países da América do Sul, com uma população menor do que a da Cidade do Rio de Janeiro, praticamente sem recursos naturais, vítima histórica da disputa de poder entre os dois gigantes sul-americanos - Brasil e Argentina -, esse grande pequeno país tem uma das sociedades mais avançadas, mais harmônicas e menos desiguais de todas as Américas.

Conseguiu com muito sucesso adaptar-se à sua realidade, reconhecendo suas limitações e investindo naquilo que é efetivamente capaz de alterar a vida de qualquer pessoa, de qualquer sociedade, de qualquer país: a Educação. O Uruguai foi o primeiro país das Américas a ter uma educação primária universal, gratuita e obrigatória. Isso ocorreu nos idos de 1877, onze anos antes da libertação dos escravos no Brasil.

A partir desse fato, é possível compreender um pouco o porquê do vanguardismo desse país em todas as outras áreas.

Setenta anos antes dos outros países da região, o Uruguai aprovou a lei de divórcio, em 1907. A jornada de trabalho dos uruguaios é de oito horas semanais desde 1915, época em que os demais trabalhadores do mundo sequer tinham jornadas definidas por lei. Em julho de 1927, as mulheres votaram formalmente pela primeira vez na História da América Latina. Em 1932 o Parlamento aprovou a lei de voto para as mulheres em todo o território do Uruguai.

O Uruguai foi o primeiro país do continente a legalizar o aborto, em 1934. Mas a lei durou até 1937, quando foi revogada. Décadas depois o assunto voltou ao Parlamento e, em 2012, com respaldo da opinião pública, foi aprovada novamente a despenalização. Aqui cabe o registro do significado de “despenalização”, que ao contrário do que muitos desinformados pensam, não se trata de incentivar ou obrigar ninguém a abortar, mas, a não considerá-lo crime. Uma condição que tem feito com que o número de abortos despenque em todos os países em que foi adotada. Particularmente, sou contra o aborto, mas também entendo que esse é um assunto de consciência de cada um e não algo que o estado deva se intrometer. No caso do Uruguai, de lá para cá a mortalidade materna caiu e é a segunda menor do continente, depois do Canadá. Antes da lei, no Uruguai havia 33 mil abortos clandestinos por ano. Após a implementação da lei, os abortos despencaram para uma média de 9.500 por ano.

Em 2007, o Uruguai se tornou o primeiro Estado latino-americano a contar com uma lei de união civil entre pessoas do mesmo sexo. E, em 2013, foi um passo além, aprovando o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em 2008, em sintonia com legislações escandinavas, o Parlamento aprovou uma lei que pune os pais que inflijam castigos físicos a seus filhos. Em 2009 o Parlamento aprovou a lei de eutanásia. Com ela, os doentes terminais podem expressar sua vontade de interromper tratamentos médicos invasivos para não prolongar a vida. A lei ficou popularmente conhecida como "lei do bom morrer". Em 2013, o país aprovou a lei de regulação de produção e comercialização da maconha. Primeiro autorizaram a produção doméstica. E, por último, em julho de 2017, a venda em farmácias autorizadas, com uma quantia fixa por mês para cada comprador. Uma lei que, também, não incentiva e nem obriga ninguém a consumir maconha, mas que, pelo contrário, permite ao estado passar a ter algum controle sobre a sua produção, comercialização e consumo. Hoje, no Uruguai, não se vê drogados pelas ruas, tampouco facções criminosas controlando o tráfico. Lá também há cassinos, e ao contrário do que se pensa, não são perniciosos, inclusive eu e minha saudosa mãe, certa vez, tivemos a oportunidade de nos divertir em um deles.

Recentemente, os parlamentares da Câmara dos Deputados do Uruguai — pertencentes a todos os partidos políticos, da esquerda à centro-direita — aprovaram a lei que garante os direitos das pessoas transexuais, para que possam viver sem serem estigmatizadas.

O Uruguai possui o menor índice de percepção da corrupção da América Latina, segundo o relatório anual da ONG Transparência Internacional. O país, no continente, tem classificação idêntica à dos Estados Unidos e só perde para o Canadá. O Uruguai ocupa o topo latino-americano do ranking do “Índice de Democracia” elaborado pelo jornal britânico “The Economist”. É o único país com “democracia plena”. O Centro Regional para a Promoção do Livro na América Latina e Caribe patrocinado pela UNESCO indicou em 2017 que o Uruguai é o país da América Latina que mais publica novos livros per capita.

O Uruguai é considerado o país mais laico das Américas. O juramento de posse do presidente uruguaio exclui qualquer referência a Deus já que os lideres do Poder Executivo juram por sua honra pessoal e pela Constituição - dois elementos que nesse país, de fortes sentimentos liberais, são considerados mais fundamentais do que qualquer credo religioso. É claro que o presidente pode professar a sua fé e viver a sua religiosidade, seja ela qual for. O fato de o país ser laico – como acontece no Brasil, pelo menos na lei – nãos significa, de forma alguma, uma “motivação ao ateísmo”. Apenas significa que as atitudes do estado não são tomadas em função de uma ou outra crença, mas sempre baseadas na ética, na moral, comum a todos os cidadãos. Ou seja, o estado laico não proíbe cultos ou qualquer tipo de expressão doutrinária por parte da população, mas toma suas decisões sem considerar as “lideranças” religiosas, como no Brasil, em que o nome de Deus é utilizado em vão, de forma desrespeitosa, por parlamentares envolvidos até o pescoço em mentiras e contravenções.

O Uruguai está, em todos os indicadores de desenvolvimento sócio-econômico, muito à frente do Brasil e dos demais países da Região. A Criminalidade é insignificante e os uruguaios desfrutam de uma sociedade pacífica, harmônica, de uma vida tranquila e segura. Não se trata do paraíso, lá também há muitos problemas, mas esse país que já foi parte do Império do Brasil tem muito a nos ensinar.

Os brasileiros são alegres. Sim. Por fora. Porque escondemos uma profunda tristeza por vermos nossas mazelas seculares se perpetuarem sem solução. Os uruguaios são aparentemente tristes, mas interiormente, profundamente orgulhosos de seu pequeno país. Os brasileiros são multiculturais, tolerantes, pacíficos, religiosos, pluralistas. Os uruguaios são aparentemente taciturnos, conservadores. Mas aqui se mata mais do que na guerra do Vietnã, matam-se mulheres, homossexuais, negros e, a cada dia, crescem os crimes de ódio, o sectarismo religioso, a degradação ambiental, o individualismo, a falta de senso de coletivo, o desrespeito às regras básicas de convivência social. Em Montevidéu, os ônibus param nos locais corretos, o motorista aguarda o passageiro se sentar, praticamente todos estão sempre com um livro na mão, não há metrô, são poucos os viadutos, as calçadas não têm buracos, há pouco barulho. Percebe-se o senso de coletivismo e o grau de educação desse povo em todos os lugares.

Contrariamente a nós, os uruguaios são um povo maduro. Nós, aparentemente, ainda somos adolescentes, no auge de nossas contradições, inflados de hormônios. Mas o lado bom é que os adolescentes crescem, e o primeiro passo para esse crescimento é o reconhecimento de nossas imperfeições, de nossos problemas, de nossos vícios, de nossa realidade.

Esse passo já foi dado. Pela primeira vez, a triste realidade social brasileira escancarou-se nesses últimos anos. Já não a escondemos mais. Desconstruiu-se o mito de uma sociedade pacificada e hoje podemos nos ver como realmente somos: um povo mal-educado, mal preparado, racista, sexista, preconceituoso, violento e dividido, profundamente dividido.

Agora, nos resta consertar tudo isso, e para tanto, temos as nossas virtudes. Somos empreendedores, criativos, com uma energia social impressionante e dotados de todos os elementos para superarmos nossos problemas. Precisamos apenas, amadurecer!

Precisamos daquilo que os uruguaios descobriram há cem anos: educação para todos, com qualidade e liberdade para aprender e ensinar.

Laicidade absoluta, separando o domínio público, onde se exerce a cidadania, e o domínio privado, onde se exercem as liberdades individuais (de pensamento, de consciência, de convicção) e onde coexistem as diferenças (biológicas, sociais, culturais). Pertencendo a todos, o espaço público é indivisível: nenhum cidadão ou grupo de cidadãos deve impor as suas convicções aos outros e o Estado deve se manter absolutamente apartado de qualquer influência religiosa, de qualquer matiz.

Pluralismo e diversidade, reconhecendo-se o direito de cada um pensar e agir de acordo com suas convicções e respeitando-se o direito de cada um exercer, professar e ostentar suas preferências, opções, origens, etnia e valores individuais sem discriminação.

Em um momento, porém, onde tudo isso parece para nós uma utopia e a cada dia se exacerbam as tentações autoritárias, as visões maniqueístas e o conservadorismo medieval, resta-nos mais uma vez o socorro às sábias palavras de Galeano: “Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos.”

* Eugênio Maria Gomes é escritor, professor e pró-reitor de Administração da Unec. Membro das Academias de Letras do Brasil (ALB) e Teófilo Otoni (ALTO). Presidente da ACL – Academia Caratinguense de Letras - e da AMLM – Academia Maçônica e Letras do Leste de Minas. Membro do MAC – Movimento Amigos de Caratinga - , do Lions Clube Caratinga Itaúna e da Loja Maçônica Obreiros de Caratinga

terça-feira, 9 de outubro de 2018

O jovem, a sombra e o banquinho




Ele sempre era o primeiro a chegar e o último a sair. Todos os dias, com raríssimas exceções, por volta das 14 horas e brincando com todos que deparava pelo caminho o jovem se aproximava do seu destino, que nada mais era do que uma pequena sombra que escondia um banco de madeira em formato de L.

Por ali ele ficava até que aos poucos, sem muita demora, estava rodeado de tantos outros jovens ou não que se apertavam debaixo da pequena copa da árvore, fugindo dos raios do sol. Situação que perdurava até a chegada da noite.

O motivo do rotineiro encontro, além da algazarra juvenil provocada pelo papo sem fim, eram infinitas partidas de carteado, que se revezavam entre o truco e o buraco.

Entre uma partida e outra o que não faltava era conversa fiada, contos que se repetiam com certa frequência e muitos planos para o futuro. Principalmente os mais jovens desabafavam seus projetos de vida, seus sonhos, seus desejos de conquistas.

Todos e às vezes muitos de uma só vez, balbuciavam seus delírios e criavam cenários futuristas. Claro que no final de cada prosa todos se davam bem, como num conto de fadas que sempre tem o final feliz.

Mas com o passar do tempo, e por motivos variados, ora um ora outro, fazia com que a turma de amigos do carteado fosse diminuindo. Até que praticamente não era possível mais continuar a jogatina, pois passou a faltar parceiros. Cada um dos que não apareciam mais deu a entender que atinou em seguir o seu destino, os rumos da vida e buscar a concretização dos seus sonhos.

Mas ele continuava o mesmo, chegando por volta das 14 horas, sentando no banquinho, que agora já não era tão disputado, sendo o último a ir embora para o seu lar. Frequentemente quando alguém passava pela rua, perto de onde estava sentado, introduzia um papo que parecia ser interminável. Falavam de tudo, de coisas corriqueiras ao embate de ideias políticas, e ao fim o transeunte continuava o seu destino.

Mas algo diferente parecia estar acontecendo com aquele garoto, que depois de alguns anos fazendo sempre a mesma coisa, já não era mais o mesmo, pois os sinais da idade começam a despertar.

O papo amigável, descontraído e repleto de sonhos, transformou-se em queixas, desilusões e cheio de amarguras. Até que ele se viu praticamente só, sentado no banquinho debaixo da imensa sombra proveniente da copa da árvore. Não era preciso mais empurrões pois o espaço se tornou todo dele. E cultivando a solidão começou a pensar na vida de cada um dos companheiros que por várias tardes ali estiveram.

Foi justamente naquele dia, num momento de solidão, que ele aprendeu que sombra e água fresca pode nos fazer sonhar, gastar o tempo da vida, mas jamais conquistar os sonhos que queremos. O que importa não é o que queremos, mas sim, o que fazemos para conquistar o que queremos.


Walber Gonçalves de Souza é professor e membro das Academias de Letras de Caratinga (ACL), Teófilo Otoni (ALTO) e Maçônica do Leste de Minas (AMLM).

Resultado do 1º Concurso Literário da A.M.L.M. - Prêmio Prof. Antônio Fonseca da Silva



De acordo com o Edital Nº 01/2018 - I CONCURSO LITERÁRIO DA ACADEMIA MAÇÔNICA DE LETRAS DO LESTE DE MINAS - PRÊMIO LITERÁRIO PROF. ANTÔNIO FONSECA DA SILVA – CRÔNICAS, a Academia divulga o resultado parcial dos classificados, aguardando eventuais recebimentos de recursos, conforme previsto no edital, para a divulgação definitiva do resultado.
Concorreram 32 trabalhos e foram selecionados 12, sendo que os três primeiros receberão a Medalha Prof. Antônio Fonseca da Silva de Literatura e, os classificados do 4º ao 12º lugar receberão o Diploma de “Menção Honrosa” pela classificação.
RELAÇÃO EM ORDEM DE CLASSIFICAÇÃO: 
1º lugar – A Boneca de Pano, de autoria de Phâmella Paula da Silva 
2º lugar – Caminhando a Sessenta, de autoria de Evandro Valentim de Mello 
3º lugar – O Desinteresse pelo Interessante, de autoria de William Ribeiro 
4º lugar – O Melhor Elixir, de autoria de Antônio Wagner Bastos de Almeida 
5º lugar – A Crise do Calendário, de autoria de Sophia Roberto Cezário 
6º lugar – Um conto Interativo Sobre o Ser Humano, de autoria de Cristiana Ana Lima 
7º lugar – O Dicionário de Oratório, de autoria de Tiago Rafael dos Santos Alves 
8º lugar – O Homem Que Queria Aprender a Falar, de autoria de Renato Barbosa de Lima Júnior 
9º lugar – O Milagre da Água, de autoria de Maria Stela de Oliveira Gomes 
10º lugar – A Esperança, de autoria de Maria das Graças Loures Vieira 
11º lugar – Brilho Radiante do Sol, de autoria de Álvaro Celso Mendes 
12º lugar – Por que as Letras e não os Números? , de autoria de Lucas Soares Alves Cruz.
Todos os classificados serão homenageados em sessão solene da AMLM – a ser confirmada para o mês de dezembro – e receberão, além da medalha e ou do diploma, 5 (cinco) exemplares da publicação “Obreiros Literários”, da Academia, contendo textos dos acadêmicos e dos classificados neste concurso literário.
Caratinga, 23 de setembro de 2018. Eugênio Maria Gomes Geraldo Elísio Fontoura de Oliveira Presidente Secretário

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Alzheimer Cultural



 A lembrança das labaredas ainda está na mente, mesmo à distância e pela TV a triste cena da destruição do Museu Nacional, localizado no Rio de Janeiro, insiste em provocar um sentimento de raiva, revolta e tristeza. Ver a memória se apagando aos poucos deveria ser um motivo de preocupação, mas no Brasil, infelizmente, não parece ser o caso.

Tenho tentado achar uma explicação, um jeito de provocar uma reflexão, de mostrar a falta que a memória, que a cultura faz para um povo, para uma nação, e o caminho foi fazer uma analogia com uma das doenças mais desafiadoras dos últimos anos, o Alzheimer.

Sabemos que quem é acometido pelo Alzheimer aos poucos vai perdendo a memória e em muitos dos casos de forma vagarosa. Além do esquecimento de nomes, lugares, pessoas, o portador de Alzheimer começa a ter atitudes que ele não teria se não tivesse portando a doença. Por isso, ele passa a requerer cuidados super especiais, senão pode provocar acidentes com ele e/ou com os que estão ao seu redor, como por exemplo, queimar-se em um fogão, ingerir alguma substância tóxica, cortar-se; enfim, por perder a memória aos poucos vai perdendo a percepção de perigo. E o fim da vida costuma ser sobre uma cama, praticamente de forma desfigurada pela atrofia muscular.

Imagino que o mesmo acontece quando um povo vai perdendo sua memória, vagarosamente ele vai se desumanizando. E os sintomas de um povo sem memória é o mesmo de uma pessoa com Alzheimer. Primeiro, vai esquecendo sua própria história, em seguida, começa, mesmo que sem querer ou perceber, o seu processo de autodestruição.

Um povo sem memória tende a repetir os mesmos erros do passado; torna-se intolerante, estúpido e grosseiro; defende a justiça com as próprias mãos; um povo sem memória, não consegue ser patriota, valorizar suas conquistas, seus patrimônios históricos, culturais e naturais. Um povo sem memória não consegue sair dos seus problemas sociais, pois nunca enxerga as causas dos problemas e vive eternamente combatendo as consequências, o que nunca tem fim. Um povo sem memória orgulha-se da baixaria e da própria pequenez das suas atitudes.

A cada lapso e destruição da nossa memória coletiva, o nosso Alzheimer Cultural vai ficando mais evidente e enraizado, vai se fortificando e tornando-se cada dia mais irreversível. E conseguimos perceber os sintomas de um povo que está acometido pelo Alzheimer Cultural quando ele simplesmente não se importa com nada e passa a não se reconhecer na própria história; quando não consegue perceber a destruição de si mesmo pois não se percebeu perdendo memória.

As piores labaredas não estão nos objetos, mas sim nos neurônios, na mente, na essência de cada um de nós. Um povo sem memória é um povo sem história. O fim de um povo sem cultura é atrofiar-se nas suas próprias mazelas.



Walber Gonçalves de Souza é professor e membro das Academias de Letras de Caratinga (ACL), Teófilo Otoni (ALTO) e Maçônica do Leste de Minas (AMLM).

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Combater o bom combate



Às vezes nos perguntamos o que precisaríamos fazer ou realizar para sermos seres melhores. Sabemos que evoluir é uma constante e modificar-se também, faz parte da vida e seus inexplicáveis mistérios, todavia esperamos ou deveríamos querer que este processo fosse significativo, portanto, com consequências positivas.

Alguns povos/nações apresentam alto índice de qualidade de vida, buscam um equilíbrio social que permite que a dignidade humana seja uma realidade, que possa ser de fato percebida e vivida pelas pessoas. Mas o que eles fazem para atingir tal estágio social? Que comportamentos, sentimentos, atitudes estão presentes nestes grupos? Pois não é possível acreditar que tal realidade não requer um mínimo comprometimento das pessoas diretamente envolvidas na sociedade em questão.

O comprometimento das pessoas com a própria sociedade em que ela se insere diz tudo sobre ela. Nunca teremos pessoas perfeitas, mas sempre poderemos ter e ser pessoas melhores. Talvez aí esteja o segredo de tantos povos que conseguem ser sempre lembrados como uma sociedade mais digna de se viver.

Há um ditado que diz que o “mundo muda quando a gente muda”, pode até ser um clichê, uma frase de efeito como muitos afirmam, mas não deixa de ter um fundo de razão que nos permite uma profunda reflexão, pois não há mudança somente nos outros e nas coisas. A mudança que queremos deve partir de cada um de nós, através, entre outras coisas, da generosidade, companheirismo, zelo pelos outros, cuidado com o ambiente, busca pela justiça, enfim, promovendo o cuidado com a vida e de tudo que dela provém.

Precisamos ter coragem de combater o bom combate. Que nada mais é do que o combate que travamos conosco mesmo. Onde a busca em ser melhor deveria ser o norte a seguir. Superar limites, acreditar nas potencialidades, realizar, mexer-se constantemente também significa combater o bom combate.

Há um pensador que afirma que somos a média das pessoas que convivemos, dos livros que lemos, dos ambientes que frequentamos. Se faz sentido o que ele propaga, torna-se uma boa forma de auto avaliação. Basta analisar com quem andamos, que livros fazem parte da nossa vida e quais ambientes costumamos estar presentes. Feita a análise, hora de tomar a atitude e ver em que podemos ser melhores.

O que não dá mais é ficar sempre jogando a culpa nos outros e por consequência transferindo a responsabilidade. Ao travarmos o bom combate, ganhamos individualmente, pois nos conhecemos cada vez mais e ao mesmo tempo abrimos a possibilidade de criar um ambiente coletivo mais harmonioso.

E a grande questão é que nunca é tarde para sermos melhores. Precisamos somente de um pouco de coragem para admitirmos a renovação, a mudança que queremos, mas não esqueçamos das pessoas, dos livros e ambientes, eles são fundamentais.


Walber Gonçalves de Souza é professor e membro das Academias de Letras de Caratinga (ACL), Teófilo Otoni (ALTO) e Maçônica do Leste de Minas (AMLM).
 

sábado, 8 de setembro de 2018

O que aprendi com os quadrinhos


Desde bem cedo minha mãe me abençoou com o convívio com os livros. Em casa sempre havia uma estante cheia deles, de todos os assuntos. Os que mais me fascinavam eram os de história e geografia, que ela recebia da editora por ser professora e trabalhar na direção de um colégio da rede estadual. Alguns eram livros novos, daqueles de versão do professor, com comentários em letras vermelhas. Outros, os meus preferidos, eram livros velhos e de páginas já amareladas, com o cheiro característico da batalha da celulose contra o tempo.

Um desses meus livros preferidos eram os da coleção Globerama: O Mundo Através do Tempo, uma enciclopédia ilustrada que tinha o perfeito subtítulo “Tesouro de Conhecimentos Ilustrado”. Minha mãe os havia ganhado de seu tio avô quando ela estava ainda no ensino fundamental. Na minha infância, nos anos 80, muito do conteúdo destes livros já estava ultrapassado, pois se tratava de uma publicação dos anos 50-60, mas para mim – em minha imaginação – eram uma fonte de conhecimento universal ilimitada, o que o Google viria a ser para as gerações atuais.

Destes livros o conhecimento me fascinava, mas o que me hipnotizava por horas a fio eram as ilustrações. Altamente detalhadas, ricas, tecnicistas mas elegantes, como só o traço francês – origem destes livros – sabe ser.

Conquistado pela fusão leitura-ilustração, o passo seguinte nesta jornada também foi incentivado pela minha mãe. O meu primeiro material de leitura, de minha propriedade, só meu, foram as revistas em quadrinhos.

As do Maurício de Souza eram muito legais. Eu podia estar imerso em um mundo de fantasia e desenho com paralelos incríveis com o meu entorno. Turminha da rua, jogar bola, pegar frutas no terreno do vizinho, invenções e planos infalíveis. Maurício de Souza acertava em cheio ao levar para o papel fragmentos da infância que muitos brasileiros viveram e viviam.

Mas nesta primeira infância as publicações que me pegaram de jeito foram as da Disney. Os temas e roteiros não eram nada adaptados ao mercado brasileiro, muito pelo contrário. As histórias eram repletas de lendas e modo de vida americanizado, com seus costumes, referências históricas e climas. Imagino hoje o esforço que os tradutores aqui no Brasil faziam na época para adaptar o roteiro ao nosso entendimento.

Mais uma vez, agora com a Disney, o traço das publicações chamou minha atenção. Só que de uma forma diferente. Eu agora era atraído pelo background, os desenhos que servem de fundo à cena do quadrinho. Os da Disney se destacavam, para mim, por mostrarem os cenários e ambientes cheios de detalhes, sombras e uma combinação de cores atraentes. Eu não sabia, ainda, mas o que fixava meu olhar naqueles desenhos, que para os outros era secundário, era a sua precisão arquitetônica. Eram perspectivas que nos transportavam para dentro da história e davam a dimensão precisa do que o roteirista e o autor queriam dizer naquele exato momento. Eu não podia ver a hora de chegarem as férias escolares para minha mãe comprar o Almanaque de Férias Disney, que trazia, além das melhores histórias da temporada, muitas atividades como cruzadas, caça-palavras, enigmas e tudo mais que as crianças, como eu, na década de 80 podiam se divertir e não precisavam de pilha ou wi-fi.

Desta época sinto muita saudade também do Globinho. Um encarte que vinha aos domingos no jornal O Globo e que trazia tirinhas do Zé do Boné, Hagar, Recruta Zero, Dick Tracy e Calvin e Haroldo. Eu ainda posso sentir o cheiro da tinta e do papel jornal destes gibis.

Na pré-adolescência eu descobri, além de outras coisas, os Comic Books, os quadrinhos de heróis. Na casa de um primo mais velho, que tinha estas e outras revistas escondidas embaixo da cama.

Nesta fase eu lia todos. Todos os que, por graça de Odin, chegavam à região metropolitana do Rio de Janeiro na década de 80. Os que me encantavam mais eram os do Batman e do Homem de Ferro. Estes dois heróis não tinham força sobre-humana, poderes sobrenaturais, ou uma linhagem da qual deveriam cumprir o legado. Eram homens que desafiavam os vilões da fantasia com ideias.

A idade adulta chegou e com ela vieram muitos boletos e grandes responsabilidades (já avisava o tio Ben). A descoberta de novos interesses de conhecimento, a fase da busca e acúmulo da bagagem técnica profissional, enfim, fui descobrindo como todos o outro lado da fronteira de nossas pequenas cidades, mas nunca deixei de admirar o Homem de Ferro.

Até que, no ano de 2008, uma notícia encheu os velhos jovens nerds de alegria. Chegaria ao cinema, com toda a tecnologia disponível em nosso tempo, o filme do Homem de Ferro. Foi um sucesso tremendo. Que deu origem a nada mais nada menos que 19 filmes que nos últimos 10 anos foram os maiores sucessos de público e faturamento do cinema mundial.

Foi uma grande alegria ver um super-herói que de super só tem o seu intelecto e sua vontade, ser representado no cinema em uma posição de protagonismo e liderança. Isto é, em minha opinião, bastante simbólico para as gerações atuais.

Algumas características que os criadores do Homem de Ferro em 1963 o deram e que o tornam tão humano e o aproximam de um homem comum: Tony Stark não tem identidade secreta, todo mundo sabe quem ele é e onde mora; Ele é rico, por herança, mas entendeu o impacto das atividades do pai na sociedade e mudou completamente a empresa da família, inclusive multiplicando em muitas vezes esta fortuna; Antes de encarar as empresas do pai e o combate ao crime, estudou muito, alcançando mestrado em engenharia elétrica e física no MIT; Enfrentou problemas com álcool e depressão, tendo na sequencia superado e procurado ajudar outras pessoas com o mesmo problema; Ele tem problemas de relacionamento, não conseguindo por consequência do seu temperamento e da sua entrega ao trabalho, formar uma família; Ele utiliza os meios de que dispõe para construir soluções que o auxiliam e aos outros a enfrentar grandes desafios, e quando estas soluções causam danos colaterais, ele se apresenta como responsável e encara as consequências.

Enfim, Tony Stark, o Homem de Ferro, com sua soberba, arrogância, inteligência, bom-humor, patriotismo, fidelidade e honra, tem muito a nos ensinar com seus erros e com seus acertos.

O que me motivou escrever este texto foi um presente incrível que ganhei. Minha amada esposa Jocinéia e minha nerd filha Lara me presentearam com uma edição especial da revista Tales of Suspense nº 39 de 1963, que é nada mais nada menos que a primeira aparição do Homem de Ferro nas histórias em quadrinhos. Um tesouro que não empresto e não vendo.

Esta história não tem fim. Termina e recomeça sempre que quisermos e precisarmos. Mas como no final de todo quadrinho, aqui cabem os créditos e agradecimentos.

Em toda essa epopeia agradeço a minha mãe Lurdinha, por ter me deixado mexer em todos os livros; ao meu pai Odilon por ter me ensinado a gostar de jornal; a minha esposa e filha por aturarem e compartilharem estes gostos; e a Stan Lee, por ter criado este e tantos outros personagens que nos divertem ensinando e nos ensinam divertindo.

E, parafraseando o encerramento dos textos deste mestre da fantasia dos quadrinhos, eu não poderia perder a oportunidade de um dia escrever:

Excelsior!


Artigo publicado no Diário de Caratinga.






FLÁVIO DE ABREU RADAMARKER é Membro da Loja Maçônica Joaquim Rodrigues D´Abreu Nº 1921 – Niterói – RJ. Formado em Arquitetura e Urbanismo pela UFRJ e extensão internacional em Marketing pela Youngstown State University – Ohio. É Arquiteto especialista em design de varejo e Perito Judicial. É Membro Correspondente da AMLM.

Acadêmico Rogério Vaz de Oliveira recebe Prêmio Jucá Santos


O 8° Prêmio Jucá Santos, promovido pela Real Academia de Letras de Porto Alegre, em parceria com a Academia Maceioense de Letras reconheceu e premiou inúmeros escritores do Brasil e Exterior. O evento ocorreu na cidade de Maceió e foi prestigiado por autoridades militares, civis, escritores e poetas.

O Acadêmico Rogério Vaz de Oliveira, membro da Academia de Letras do Rio Grande do Sul e Academia Maçônica de Letras do Leste de Minas-AMLM, foi homenageado com o Prêmio Jucá Santos, pelo conjunto de sua obra, recebendo o Colar da Real Academia de Letras de Porto Alegre, diploma e exemplares da Antologia - Jucá Santos.